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Um trem para Pyongyang

Texto por Luiza Duarte

Percurso de trem pelo interior da Coreia do Norte evidencia o desejo de abertura por parte do regime de um dos países mais fechados, repressivos e autoritários do mundo; unificação da península é tema concreto

30 de dez. de 1929 min de leitura

Na estação central de Pequim, o movimento de passageiros sob a chuva fina é constante. Esse é o ponto de encontro no primeiro domingo de novembro. O mais antigo grande terminal da China, construído no fim dos anos 50, hoje conecta 127 mil quilômetros de trilhos e leva a destinos internacionais. 

Duas outras estações maiores e mais modernas, na cidade de quase 22 milhões de habitantes, já tiraram a coroa da Běijīngzhàn, mas ela ainda é o ponto de partida para duas rotas ferroviárias emblemáticas do século 20: Pequim-Moscou, que liga os trilhos chineses à ferrovia Transiberiana; Pequim-Pyongyang, a porta de entrada terrestre para a isolada Coreia do Norte. Conexões físicas com grandes implicações geopolíticas ao longo da história da República Popular da China.

“Você está indo para Pyongyang?”, escuto. Sou a segunda a chegar. Fabien, 27 anos, faz intercâmbio em Seul. É o mais velho e chegou três horas mais cedo. O francês, que estuda língua e civilização coreana, zerou a memória do celular “para evitar problemas”. Visivelmente tenso, ele quer saber se li a lista de proibições enviada pelos organizadores. Essa não é uma corriqueira excursão universitária. O destino é um dos países mais fechados, repressivos e autoritários do mundo. 

Estrangeiros a passeio não experimentam a realidade do norte-coreano médio.
Passageiros a caminho de Pyangyang: estrangeiros a passeio não experimentam a realidade do norte-coreano médio.(Photo: Luiza Duarte/ Headline)

Estrangeiros a passeio não experimentam a realidade do norte-coreano médio. Mesmo assim, enfrentam restrições de acesso e de conduta. Roteiro pré-definido e enquadrado, vigilância permanente, nenhuma chance para drogas, quartos separados por gênero, código vestimentar e o grande desafio para millennials: ficar offline. Quem escolheu esse destino para as “férias”, vê como atrativo o risco e a expectativa gerada pelo desconhecido, pelos mitos em torno da Coreia do Norte. “Tenho medo que alguém faça algo errado e coloque todo mundo em perigo. Lugar bizarro atrai gente bizarra. Não é Las Vegas, não dá para beber e fazer o que quiser. Pode acabar mal”, (aspas do francês?) .

Não é possível fazer essa viagem sozinho. É preciso acionar uma das dezenas de agências de turismo que organizam passeios no país, com a benção do governo. Todos os roteiros partem da China, de avião ou de trem. As regras de como se comportar dentro do regime comunista são muitas, aceitá-las é uma condição para embarcar.

Sacos de grãos transportando tecidos e outros itens manufaturados para estoque ou revenda brigam por espaço com malas de PVC coloridas na esteira da checagem de segurança. Dispositivo obrigatório não só nas estações de trem, como de metrô da China. Rostos cansados e mãos calejadas, trabalhadores migrantes chegam e partem da capital. Dentro da estação, uma grande área de embarque aquecida com cadeiras vermelhas que parecem estar todas ocupadas. Há lojas, Starbucks e redes de fast food, mas rostos ocidentais ainda chamam a atenção. São raros.

"Está mais calmo, mas é a Coreia do Norte. É imprevisível. Pode mudar a qualquer momento." 
 Chin-Hae, morador de Pyongyang

Agora, já somos quase 30 pessoas. Exóticas o suficiente para atrair olhares curiosos e desconfiados. Cena que se repetiria diversas vezes na próxima semana. Não ser jornalista também é uma condição para integrar o passeio. É preciso assinar documentos e aceitar possíveis consequências jurídicas, ainda que improváveis e desconhecidas. Visitas oficiais da imprensa precisam passar por um custoso e longo processo de autorização. Nelas, normalmente, é preciso voar direto para Pyongyang, ao invés de fazer o trajeto de trem, que percorre quilômetros do incógnito interior do país. Membros da mídia são monitorados em tempo integral por, no mínimo, um guia norte-coreano e um motorista. O sistema se afrouxa no turismo, onde o mesmo número de agentes do Estado precisa acompanhar dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Me juntar a um grupo de estudantes europeus fazendo intercâmbio na Ásia – e mais um australiano e uma hongkonguesa – para entrar na Coreia do Norte pela primeira vez, depois de cinco anos cobrindo a atualidade da região do sul da China, era minha melhor aposta.

Um número estimado de 5 mil ocidentais visita a Coreia do Norte através de agências de turismo todos os anos. O passaporte brasileiro é bem-vindo. Japoneses e sul-coreanos são vetados. Americanos também estão banidos desde 2017, depois da morte de Otto Warmbier, estudante americano que entrou no país junto com um grupo de turistas e foi condenado a 15 anos de trabalho forçado por roubar um pôster de propaganda. 

A trégua nos testes balísticos e nucleares e a investida diplomática sem precedentes do líder norte-coreano Kim Jong-un no exterior têm contribuído para atrair mais visitantes e recuperar a queda do ano anterior. Em 2018, o país roubou a cena nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang. O aniversário de 70 anos da fundação da Coreia do Norte, celebrado com parada militar grandiosa, e a retomada do Festival Arirang (Mass Games), um espetáculo anual com performances artísticas e demonstrações de ginástica envolvendo milhares de participantes – que ficou suspenso nos últimos 5 anos – garantiram o movimento nos poucos hotéis da capital norte-coreana.

Paira no ar a sensação de que houve uma distensão e que o país caminha vagarosamente para uma inevitável abertura.

Apesar das restrições de entrada de equipamentos,  multiplicam-se as imagens e relatos de viajantes na internet,. Norte-coreanos parecem se adaptar à chegada de mochileiros com cada vez mais gadgets de alta performance. Passado o susto do caso Otto, paira no ar a sensação de que houve uma distensão e que o país caminha vagarosamente para uma inevitável abertura. “É a chance de ver antes que isso aconteça”, garante Erick, que ainda tem um semestre pela frente em Seul antes de voltar para a Suécia.

Ang, nossa guia chinesa de 25 anos radicada em Hong Kong, se prepara para entrar na Coreia do Norte pela sétima vez esse ano. A última viagem foi há menos de dois meses. “Está mais calmo, mas é a Coreia do Norte. É imprevisível, pode mudar a qualquer momento”, diz, sem alarme. Recém-formada em antropologia, ela conta que teve sorte em achar o “emprego dos sonhos”, graças a um conhecido da faculdade. Aprendeu coreano seduzida pelo hallyu ou a "onda coreana". Desde o final dos anos 90, a explosão da indústria do entretenimento sul-coreana invadiu o leste da Ásia com K-pop e K-drama – música, filmes e novelas – influenciando uma geração. 

“Eles no norte querem a unificação, mas a maior barreira vai ser a mentalidade”, afirma. Ang também leva turistas para Seul e outros destinos na parte sul da península. “Lá é para mostrar novos lugares, bares, restaurantes e fugir do roteiro turístico tradicional. Em Pyongyang, é totalmente diferente. Vocês não podem sair do hotel sozinhos ou andar na rua longe do grupo”.

Governo chinês construiu do zero a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, uma revolução no transporte de passageiros no país
Governo chinês construiu do zero a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, uma revolução no transporte de passageiros no país(Photo: Luiza Duarte/ Headline)

Seis décadas de K27

O trem K27 parte quatro vezes por semana. A linha percorre mais de 1300 km e está em operação desde maio de 1954. Foi inaugurada menos de um ano depois da assinatura do armistício entre as Coreias. Corta o norte da China, cruza o rio Yalu e desce as províncias de Pyongan Norte e Pyongan Sul até chegar na capital da Coreia do Norte. São ao menos 24h de viagem.

O trem K27 parte quatro vezes por semana. A linha percorre mais de 1300 km e está em operação desde maio de 1954. 

Desde 2015, entretanto, o trecho Pequim-Dandong pode ser feito em trem bala, um modelo batizado de hexie (harmonia, em mandarim) que atinge 300km/h. Com isso, as 14h necessárias para chegar até a última cidade dentro do território chinês caem pela metade. Na última década, o governo chinês construiu do zero a maior rede de trens de alta velocidade do mundo – 25 mil quilômetros – gerando uma revolução no transporte de passageiros no país. Meu bilhete, no entanto, é para a experiência tradicional.

Na plataforma, cai a noite e a temperatura para um dígito. Os cerca de 20 vagões verde-escuro com duas listras amarelas lembram imediatamente o modelo blindado usado por Kim Jong-un para fazer sua primeira visita ao exterior como chefe de Estado. Em março, ele foi a Pequim de trem, como fazia seu pai, Kim Jong-il, e seu avô, Kim Il-sung, o líder supremo da nação. Uma forma de reivindicar seu lugar na vasta iconografia do regime que une líderes e ferrovias. O dirigente de cerca de 35 anos parece atento às décadas de curiosidades e interesse pelos trens do regime. Segundo a versão oficial, foi justamente durante uma viagem de trem que seu pai teve um ataque cardíaco e faleceu em 2011.

Estrangeiros que vão cruzar a fronteira ficam confinados à segunda classe. As cabines não têm porta ou TV, são seis camas, três de cada lado, com edredom e travesseiro. Limpo e bastante razoável. O serviço de bordo inclui jantar. Carrinhos com opções de bebidas e lanches cruzam os vagões com frequência movidos por barulhentas comissárias. As janelas não abrem e o aquecedor funciona bem. No final de cada vagão, fica o item indispensável para o passageiro chinês: o distribuidor de água fervendo para suprir a infindável demanda por chá e cup noodles. Um chinês alto e com corte de cabelo militar quer saber onde vamos e por que recebi uma refeição diferente. “Coreia do Norte fazer o quê? Não tem nada lá! É o interior, tudo rural”, exaspera-se, depois de me ensinar uma outra expressão em mandarim para “vegetariano”.

Há alguns anos, ele trocou a Dandong de 2,4 milhões de habitantes, que descreve como “uma cidade de três ruas”, pelos encantos da capital. “Bares, boates, Pequim tem tudo que você pode querer”. Ele costuma pegar o trem para visitar a família. “Da minha casa dá pra ver a Coreia do Norte, nunca fui. À noite não tem nenhuma luz vindo de lá. Sabemos pouco sobre, mas não é desenvolvida como a China”. Em seus mais de 40 anos, nunca saiu do país. “Viajar para o exterior é um desperdício de dinheiro, a China tem tudo – praia, montanha – e é muito mais prático”. 

“Da minha casa dá pra ver a Coreia do Norte, nunca fui. À noite não tem nenhuma luz vindo de lá. Sabemos pouco sobre, mas não é desenvolvida como a China.”

Nosso grupo está dividido em dois vagões, sempre ocupando as camas de baixo das cabines, as únicas onde é possível sentar. Os bancos dobráveis no corredor, ao lado das tomadas, estão todos ocupados. Os passageiros são chineses, a maioria homens. Tess, a única holandesa do meu grupo, conta que conversou com dois coreanos. “Eles já foram dormir. Estão voltando de uma viagem de negócios”, diz a estudante de engenharia. Não há nenhum outro grupo de ocidentais a bordo. 

O trem para nas cidades de Tianjin, Shanhaiguan e Shenyang. Pessoas partem e outras iniciam viagem. Às 22h as luzes se apagam. Da janela, as cidades se enfileiram. Conjuntos de prédios idênticos com luzes vermelhas piscando no topo. Alguns parecem inabitados, muitos outros estão em construção. Sem janelas, outros parecem abandonados. Estações  novas e chaminés que soltam fumaça branca. Cinco horas depois de deixar a capital, prédios ainda aparecem. Ao amanhecer, eles já deram lugar a secos campos de milho e pequenos vilarejos de casas tradicionais idênticas e acinzentadas.

Terceira Coreia

Coreanos são o maior grupo de estrangeiros presentes na China. Dados oficiais de 2010, o último censo nacional disponível, indicam que mais de 120 mil vivem no país. Outras fontes falam em até 400 mil coreanos em solo chinês. A maior parte deles vive justamente nas províncias chinesas que fazem divisa com a Coreia do Norte: Liaoning e Jilin. Nesta última, a região  autônoma de Yanbian é com frequência chamada de a “terceira Coreia”. Além disso, durante séculos populações de origem étnica coreana ocuparam essa parte da Manchúria, que hoje integra o nordeste da China.

Mais de 120 mil vivem no país. Outras fontes falam em até 400 mil coreanos em solo chinês.

A divisa com a China é a principal rota de fuga de dissidentes e uma plataforma de operação para o tráfico humano que explora refugiados. O maior êxodo de norte-coreanos aconteceu nos anos 90, quando grandes dificuldades econômicas do regime, diante do colapso da União Soviética, geraram fome e mortes. De tão perto, é possível ver a outra margem do Yalu. Postos de observação para turistas foram instalados do lado chinês. Yue, 23 anos, estudante de direito em Pequim, veio para nossa cabine para “praticar inglês”. “É a minha cidade. É fácil encontrar coreanos em restaurantes ou karaokês”, diz ele. 

Essa fronteira está menos em evidência que a estabelecida em 1953 no paralelo 38. A faixa que divide as Coreias, chamada por ironia de “zona desmilitarizada” é uma das áreas mais bem guardadas do mundo, onde um forte aparato de segurança está mobilizado. Mas talvez não por muito tempo, já que os dois governos concordaram recentemente em desmantelar 20 postos de fronteira e estudam outras medidas. Ao norte, a China têm intensificado a vigilância, mas não há segurança visível do lado chinês. A Coreia do Norte tem ainda uma terceira fronteira ao leste, com a Rússia.

Desembarque em Dandong às 7h30 da manhã para a troca de trens. A estação fica no centro da cidade. Em frente à entrada, uma grandiosa estátua avermelhada de Mao Tsé-tung, fundador do Partido Comunista Chinês, com a mão direita levantada saúda os visitantes. Não poderia haver melhor transição antes de, finalmente, cruzar a Ponte da Amizade Sino-Coreana, que liga os dois países.

Na outra margem do Yalu: Sinuiji

É só então que recebemos o visto. Um folheto azul turquesa nas dimensões de um passaporte. Dentro, foto, dados pessoais, número do visto e datas autorizadas. Temos permissão para cinco dias. No verso, um mapa mostra a Península Coreana inteira. Na saída, será preciso devolver o documento. Dentro da estação passamos pela imigração chinesa e entramos no trem.

Em minutos, chegamos em Sinuiji, primeira cidade do lado coreano. O controle de segurança e de passaporte acontece dentro do trem. Militares percorrem os vagões. Os passageiros são recebidos com detectores de metais de mão. Soldados escolhem bagagens e celulares para serem vistoriados ao azar, mas a revista é cortês e superficial. Um deles entra na nossa cabine e pede livros. Lê frente e verso de cada um e passa páginas procurando conteúdo potencialmente vetado: pornografia, religião e textos sobre a Coreia do Norte e seus líderes. 

Soldados escolhem bagagens e celulares para serem vistoriados ao azar, mas a revista é cortês e superficial. 

Na plataforma, duas mulheres com uniforme azul-royal, boina, salto alto e cabelos presos no estilo da primeira-dama norte-coreana, Ri Sol-ju, estavam a postos. Cada uma com um carrinho com cerveja japonesa, salgadinhos vietnamitas e outras opções chinesas e locais. “Dá para entender perfeitamente, é a mesma língua, mas norte-coreanos usam construções bem mais formais e preciso ficar atenta às várias expressões coreanas que indicam hierarquia. Fico com medo de ofender alguém”, explica Yvone, 25, anos, estudante de computação de Hong Kong, que passou boa parte da adolescência assistindo novelas sul-coreanas.

Ficamos parados por mais de duas horas. O sinal de partida significa também que fomos aceitos no país. O alívio geral é evidente. A velocidade do trem se reduz bastante. Nos envelhecidos trilhos norte-coreanos, ela não ultrapassa os 60km/h. Durante 4h, plantações de arroz, repolho e milho são pontuadas por vilarejos de pouco mais de uma dúzia de casas modestas. Nas plataformas ou prédios centrais, as imagens dos dois últimos líderes do regime ocupam posição de destaque. A terra parece seca e os rios baixos exibem bancos de área. Alguns trabalham no campo, mas não há tratores ou outras máquinas. Arbustos recém-plantados ao longo do trilho e obras de renovações sugerem que a vista é cuidada e que talvez os vilarejos mais prósperos sejam os visíveis do trem. Um grupo de homens magros e queimados de sol empilha sacas de grão em um vagão de um trem de cargas. Crianças andam perto das casas e bicicletas percorrem caminhos de terra. Roupas surradas e rostos abatidos. Nos telhados, pequenos painéis solares reluzentes chamam a atenção. 

Apesar do baixo consumo local de industrializados, o lixo plástico se acumula em alguns pontos. O sinal das operadoras de celular chinesas não capta. Estrangeiros podem comprar um chip local. Cerca de 300 dólares por 1GB. Ang avisa que podemos usar um serviço de ligação internacional no hotel, pago por fora e intermediado por uma telefonista em mandarim. 

A chegada em Pyongyang acontece à noite. Ao invés de anúncios, são imagens dos líderes que permanecem iluminadas em meio à relativa escuridão. Duas moças com cabelos médios, saias até os joelhos e bolsas de mão nos recebem na porta do vagão. Daquele momento até a partida, elas acompanhariam todos os nossos passos.

Pyongyang 

Ri, 23 anos, é guia há um ano. Fez a faculdade de turismo do regime e com sorriso mecânico parece repetir a cada novo grupo os mesmos elogios e perguntas. Os relatos são positivos e otimistas sobre o desenvolvimento do país. Novas construções, concluídas em tempo recorde, e conquistas da família Kim. “Elas não podem sair do roteiro.  São observadas”, reforça Ang, que já trabalhou com as norte-coreanas em outra viagem. 

É difícil dizer o quanto norte-coreanos de fato acreditam na propaganda do regime, mas internet e novas tecnologias vêm minando o monopólio de informação do governo e, ao mesmo tempo, abrindo novas possibilidades de vigilância. Celulares entraram em cena. Ri tem o dela. Troca mensagens, assiste filmes e tem acesso a uma intranet. 

“Você conhece gente do mundo todo, não tem vontade de viajar?”, testa um dos estudantes. A guia diz que “nunca deixou o país, mas gostaria de ir à Paris”. Nem todos os norte-coreanos estão confinados, exceções e deslocamentos extraoficiais são autorizados para pessoas próximas do círculo de poder. 

Yvone garante que Ri é um caso clássico de blefaroplastia do leste asiático ou "cirurgia de pálpebra dupla", popular na Coreia do Sul para criar a impressão de um olho maior, “abrir o olhar”. Os procedimentos estéticos têm se tornado mais populares também no norte. Cerca de 60% da população do país vive hoje em cidades e nos últimos anos houve um crescimento do mercado informal de alimentos, mas também de bens e serviços. 

Algumas lojas de roupas vendem lingerie, casacos e sapatos sem marca, todos feitos na China. Contrastando com a sobriedade dos uniformes, ternos maoístas ou sua versão local adaptada, “a roupa do povo”, alguns casacos coloridos podem ser vistos nas ruas de Pyongyang, como o manteau rosa claro de Ri. Ainda sim, há recomendação para que até os estrangeiros evitem um look “antissocialista”, como jeans, shorts, brilho, grandes estampas e óculos escuros.

Conversar com pessoas na rua e entrar em lugares não previstos é fora de questão. Ri anda atrás do grupo e faz com frequência a contagem do número de participantes. “Moradores de Pyongyang ainda não estão acostumados com estrangeiros. Muita gente se assusta”, insiste. 

Mais experiente com a “mentalidade dos estrangeiros”, Choi, 29 anos, é guia há 4 anos e a autoridade no ônibus em que ficamos confinados entre uma atração e outra. Até os 12 anos, viveu na Suíça porque seu pai “trabalhava com exportações”. 

As duas guias são membros da elite do país, como boa parte dos cerca de 3 milhões de residentes da capital. Militares, professores universitários, médicos, artistas, funcionários do governo, lideranças do partido e suas famílias são alguns dos que têm o privilégio de “viver onde vive o grande líder”. No entanto, o palácio do governo ou residência oficial do chefe de Estado não são visíveis. “Vemos imagens de dentro dos edifícios, mas ninguém sabe onde ficam ministérios e órgãos do governo por motivos de segurança”, Ang complementa em privado as informações dadas por Choi no microfone. 

Temos que entregar nossos passaportes e a devolução só acontece na hora de deixar o país. É como uma caução moral. O Hotel da Juventude é um híbrido entre um hotel chinês de interior – com carpete e pinturas de flores – e um centro comercial dos anos 80. São 30 andares, mas apenas 3 parecem estar ocupados. Os outros hóspedes são uma dezena de norte-coreanos. Além de lojas de souvenires patrióticos, estão à disposição para “divertir os estrangeiros” uma moderna academia, karaokê, piscina aquecida, boliche, sinuca, salão de beleza e bar – vazios. 

Além de nós, circulam nos corredores no máximo uma dezena de norte-coreanos. Experimentaríamos ainda dois outros hotéis: Kaesong Folklore e Yanggakdo em Pyongyang, neles cruzamos um grupo de turistas de Hong Kong e outro grupo de chineses. 

“Primeiro vamos ajustar os relógios”, avisa Choi ignorando que todos têm celulares que se ajustam automaticamente. Faz apenas 6 meses que a Coreia do Norte resolveu abandonar a “Hora de Pyongyang”, para adotar o mesmo fuso de Seul e Tóquio (GMT +9). Antes, a “Hora de Pyongyang”, um fuso não oficial (GMT+8½), a deixava 30 minutos atrás dessas duas outras capitais asiáticas. 

Boa parte da capital foi construída nos anos 50 para servir de “cidade modelo”. As margens do rio Taedong são habitadas há cerca de 2 mil anos, mas o regime precisava de uma vitrine e de apagar traços da ocupação japonesa. A inspiração soviética é nítida no metrô e nos conjuntos habitacionais rosa claro de quatro andares com pequenas janelas quadradas e aparência modesta. Os grandes marcos da cidade foram erguidos nos anos 70, como a Casa de Estudo do Povo, na praça Kim Il-sung, ponto central da cidade. Essa é provavelmente a imagem mais famosa da capital, já que é onde acontecem as midiáticas paradas militares.

O primeiro dia inclui nada menos que 14 visitas, entre elas a Torre Juche, monumento pela “autoconfiança nacional” – como é batizada a ideologia do regime – e de onde é possível ver o lado da cidade não visitado, a das residências mais antigas. No Mansudae, onde ficam as gigantes estátuas dos Kim, a TV estatal ensaiava a gravação de uma cena de homenagem com um grupo de mais de 50 pessoas vestidas de forma solene, algumas carregando flores. Turistas também precisam fazer uma coreografada reverência aos líderes.

Pyongyang é bem cuidada. Tem ares de cidade cenográfica e ciclovias. Nosso ônibus dá voltas pelas ruas com cores do outono – graças ao amarelo das folhas do gingko (árvore de origem milenar chinesa) – para nos deixar em outra atração a não mais de 300 metros de onde estávamos antes. Painéis solares garantem a iluminação pública, prédios residenciais recém-inaugurados por Kim, como símbolo da modernização da cidade, parecem inabitados.

A loja de departamentos Gwangbok é um supermercado modelo, onde estrangeiros são encorajados a fazer compras. Oficialmente haveriam outros como esse – as guias dizem que sim –, mas menores. No primeiro andar, uma grande seleção de alimentos industrializados chineses e alguns norte-coreanos, que imitam produtos famosos no sul. Produtos de higiene pessoal, doces, pratos prontos, bebidas e manteiga russa, mas poucas frutas e legumes. No segundo andar, roupas, calçados, móveis, itens de decoração e eletrodomésticos domésticos e bicicletas elétricas com instruções em mandarim. Enfim, no último andar, uma praça de alimentação de shopping com comida local e sobremesas estrangeiras, como waffles. Do lado de fora, homens consomem cerveja e espetinho de churrasco.

“Não esqueçam a carteira”, lembra Choi. Cada lugar visitado tem uma loja patriótica. Livros, CDs, camisetas, cartões-postais e pôster do regime. Em todas, os itens são praticamente os mesmos. Almoços e jantares acontecem em lugares diferentes. No menu, comida norte-coreana tradicional e makgeolli (vinho de arroz), além de uma noite na “melhor pizzaria de Pyongyang”, onde ingredientes “vieram direto da Itália”. “A comida para os estrangeiros não é a mesma. Servem muito mais carne para a gente”, diz Ang.

Na capital, os restaurantes indecifráveis de fora, ficam no segundo andar de imóveis aparentemente residenciais. São salões de festa com a estética dos restaurantes chineses usados para cerimônias: mesas redondas, centro giratório, cadeiras revestidas por tecidos brilhantes e arrematadas por um laço de cetim. Decoração com luzes e flores artificiais, TV ligada mostrando uma atração musical local ou ainda uma performance ao vivo realizada pelas próprias garçonetes. Somos os únicos clientes. Com a nossa saída, as luzes se apagam e o local fecha. 

Na Casa de Estudo do Povo, espécie de biblioteca central do regime – que reivindica ter um acervo de 30 milhões de livros – as pias dos banheiros não estavam conectadas à tubulação. Já conhecendo o resultado, todos buscam por títulos que fariam parte de qualquer coleção no exterior, mas não encontram a Bíblia ou o Corão. Em uma sala com televisões tubo, somos apresentados a duas turmas de adultos, uma que aprende inglês e outra alemão. São membros do partido, vivem na cidade em famílias de um filho ou dois. Muitos claramente preferiam não ter que participar do encontro com os estrangeiros. Os diferentes níveis de domínio da língua fazem com que seja no mínimo curioso que formem uma mesma turma.

Nos corredores da Escola Secundária 9 de Julho, ilustrações mostram americanos prisioneiros e sinais pedindo silêncio. A turma nos espera na sala de computadores, mas esses não estão ligados e ninguém parece ter muita intimidade com eles. Jong-Eun conta que quer ser matemática. Ela tem 16 anos e cabelos na altura do queixo, como todas as suas colegas de classe. O pai é professor de história na universidade, a mãe dona de casa. No verão, visitam a avó fora de Pyongyang, mas ela “prefere a capital”. Músicas do nosso celular ela nunca tinha ouvido e não gostou, “é fã de canções patrióticas e música clássica”. O combinado era levar comidas de fora para os alunos experimentarem, mas a troca acabou indicando um sério cenário de limitação nutricional. Jong-Eun queria saber qual a minha comida preferida e não foi sem surpresa que vi que os filhos da elite do país não tinham jamais visto nem as frutas e verduras mais comuns e baratas na vizinha China. 

Outro espaço de ensino com rígida disciplina recebe visitantes. O Palácio das Crianças Mangyongdae é um conservatório nos moldes comunistas, como os ainda mantidos pelo governo chinês. Crianças de todas as idades, em especial meninas, fazem atividades artísticas, dança folclórica, ballet, caligrafia, bordado, canto e aprendem a tocar diferentes instrumentos. Há grandiosas apresentações semanais, com cenários e figurinos elaborados, que levam pais às lágrimas. 

“Já visitamos uma fazenda e uma fábrica de produção de insumos agrícolas. Essa é a primeira vez que o parque de diversões da capital entra no nosso itinerário”, explica Ang sobre a relativa “flexibilidade do roteiro”. “Nós pedimos coisas e eles [os norte-coreanos] também oferecem novas atividades”. Uma única atração não podia ser fotografada: o Museu da Guerra da Libertação da Pátria Vitoriosa, espaço que conta a versão do regime da Guerra das Coreias. Equipamentos militares americanos e itens pessoais de soldados são expostos como troféus. Imagens de cadáveres de soldados dos EUA e até um display em tamanho real com um militar americano tendo o coração sendo comido por um corvo fazem parte da museografia. Na loja do museu, está à venda o livro, cujo título autoexplicativo é em inglês: “ Americanos imperialistas começaram a Guerra da Coreia”.

O Pyongyang Beer Bar, pequena cervejaria local com chopp claro e escuro, é o cenário da nossa despedida do país. “Agora vocês voltam para os seus países e quando se tornarem pessoas importantes, daqui há dez anos, voltem para ajudar o povo da Coreia”, Choi diz, profética. Um homem magro vestindo roupas pretas acompanha discretamente nosso grupo em alguns pontos da visita. Ele se apresenta para mim no último dia como representante da associação de turismo da Coreia, responsável por nossa visita. 

Kaesong 

Da capital é preciso três horas na esburacada “estrada da reunificação” até Kaesong. Apesar das pistas vazias, os ônibus evitam fazer o trajeto à noite pela falta de iluminação e sinalização. Uma foto de um posto de controle militar – tirada por um estudante pela janela do nosso ônibus – fez o veículo ficar parado por meia hora para explicações e colocou nossas guias norte-coreanas em situação delicada. "Ele está estudando na Coreia do Sul, talvez tenha sido influenciado por eles – essa é a razão pela qual ele se recusa a nos ouvir?!", questiona Choi sobre o responsável pelo “ato subversivo”, que não só estudava em outro país, como nunca havia pisado em terras sul-coreanas.

Ao mesmo tempo que proclamam o desejo pela unificação e exaltam as raízes comuns do povo coreano, norte-coreanos olham com suspeita para o sul “dominado pelos americanos”. Kaesong é um dos míticos lugares do passado comum coreano. É a antiga capital da Coreia durante a dinastia Koryo (Goryeo) (século 10- 14), que dá nome aos países. Sua posição geográfica é estratégica, bem no centro da península. Não se vê carros, só bicicletas e ônibus de turismo, que levavam grupos de chineses de meia idade. Diferente da capital, construções tradicionais, anteriores à fundação do regime, resistiram. É como voltar no tempo. O Palácio Taemyon está na lista do patrimônio mundial da Unesco..

A principal rota até a zona desmilitarizada é considerada uma via em melhor estado do que as de outras áreas do país, segundo operadoras de turismo. No entanto, em abril, um ônibus transportando turistas sofreu um grave acidente que levou Kim e o presidente chinês Xi Jinping a se pronunciarem sobre o ocorrido. Ao todo, 32 turistas chineses e quatro norte-coreanos, viajando com eles, morreram perto da fronteira com o sul. 

Apesar da repercussão negativa, o restaurante especializado em frango com ginseng e sopa de carne de cachorro que nos espera para o almoço, já tinha dois outros ônibus estacionados na porta. Kaesong também ocupa outro papel na aproximação regional: abriga o único parque industrial do país com empresas estrangeiras – fechado desde 2016, mas com reabertura possível (prevista pra quando?). Mais de 120 empresas sul-coreanas estão instaladas e empregam mais de 50 mil norte-coreanos. Eles trabalham por cerca de US$ 160 por mês, o equivalente a um quinto do salário mínimo na Coreia do Sul.§

Entre vizinhos

Em 2018, o líder norte-coreano cruzou oficialmente as fronteiras do país pela primeira vez, desde que assumiu o poder há 7 anos. Esteve três vezes na China e uma em Singapura para um midiático encontro com o presidente americano, Donald Trump. Em 17 anos, líderes das duas Coreias se encontraram apenas duas vezes, no entanto, nos últimos 12 meses, Kim e o presidente sul-coreano Moon Jae-in protagonizaram três cúpulas intercoreanas, iniciando um novo ciclo de aproximação entre vizinhos.

Durante as reuniões, Kim disse diversas vezes que o país estava aberto para viajantes. Um aceno que pode indicar o desejo de ressuscitar o projeto de turismo intercoreano que atraiu centenas de milhares de pessoas para o norte de 1999 até 2008, quando o desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano começou a azedar a relação. 

Sem acesso às instituições financeiras internacionais e depois de seis rodadas de sanções econômicas, o turismo é uma das parcas fontes de moeda estrangeira. Turistas pagam outro preço, em dólar, euro ou yuan. Em espécie, claro. Promover a indústria do turismo e aumentar o número de visitantes tem sido visto como uma solução rápida e fácil para contornar as crescentes dificuldades.

O regime está investindo em um grande projeto de turismo que deve ser concluído em abril, em Wonsan, na costa leste, a 180 quilômetros da capital. A estação de esqui de Kanggye, perto da fronteira com a China, foi inaugurada no início do ano. O governo chinês se prepara para os Jogos de Inverno de Pequim, em 2022, e está em intensa campanha para tornar os esportes de inverno mais populares.  

Há uma década, a Coreia do Norte se tornou um destino autorizado para chineses. A viagem é barata para os vizinhos e passeios de um dia ou um final de semana são viáveis. Não há números oficiais sobre a quantidade de turistas chineses cruzando a fronteira, mas estima-se que eles representem centenas de milhares de visitantes anuais. São de longe responsáveis pela maior fatia do turismo no norte da Península Coreana, mesmo assim o potencial de expansão é imenso, diante dos mais de 4 milhões de turistas chineses que visitam a Coreia do Sul todos os anos.

Para receber mais, o país terá que se adaptar a turistas chineses cada vez mais exigentes com segurança e conforto. Atualizar o sistema de transporte parece ser a prioridade. A possibilidade ao norte está nas discussões em curso entre a companhia ferroviária russa e Pyongyang para expandir as conexões entre os dois países. 

Ao sul, o projeto de “transporte intercoreano” é um dos pontos relevantes dos acordos recentemente assinados entre as Coreias. Esse é um aspecto da cooperação bilateral que tem consenso e produz efeitos práticos e simbólicos imediatos. "Ao reconectar nossas ferrovias, as Coreias do Sul e do Norte poderão prosperar juntas e tornar a paz na Península Coreana mais sólida.", defendeu Cho Myoung-gyon, o ministro sul-coreano da Unificação, na cerimônia que deu início a um estudo da envelhecida rede ferroviária do regime. A missão precisou de uma autorização do Conselho de Segurança da ONU para poder seguir em frente, apesar das sanções. 

A conexão também traria potenciais benefícios para a Coreia do Sul, reduzindo o tempo e o custo do transporte de mercadorias sul-coreanas para dois grandes mercados: China e Rússia. 

*Os nomes foram alterados nessa reportagem para proteger os norte-coreanos envolvidos.

#Luiza Duarte
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