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Para onde vai a direita democrática com o PSDB "nanico"?

Depois de décadas de relevância, partido terá no novo Congresso três senadores e 13 deputados federais. Sua redução evidencia vazio de uma direita democrática no país

Lucas Ferraz, da Headline | São Paulo
#POLÍTICA1 de fev. de 233 min de leitura
Manifestantes golpistas em ataques às sedes dos três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro. Foto: Sergio Lima / AFP
Lucas Ferraz, da Headline | São Paulo1 de fev. de 233 min de leitura

O PSDB, partido que monopolizou o poder com o PT por duas décadas, vive um ocaso depois de ter sido o principal ocupante do campo de uma direita democrática no país. O vazio que deixa tem sido ocupado nos últimos anos por uma extrema direita antidemocrática e o novo ano político que começa vem com uma questão: como a direita democrática brasileira irá se resconstruir?

O colapso do PSDB, já evidente nas eleições de 2018, se acentuou no pleito passado. O partido que governou o Brasil por oito anos e o Estado de São Paulo (cuja economia é do tamanho da Argentina) por quase três décadas acabou se tornando um "nanico moral", conforme expressão utilizada pela senadora Mara Gabrilli em entrevista à Folha de S.Paulo.

Candidata a vice de Simone Tebet nas eleições de outubro, Gabrilli deixou o PSDB no fim de semana, filiando-se após 19 anos ao PSD, partido controlado por Gilberto Kassab e que integra o governo Lula. A sigla desponta como um novo pólo agregador da antiga centro-direita, como nota o cientista político José Álvaro Moisés, professor da USP (Universidade de São Paulo).

"Kassab e Rodrigo Pacheco estão de alguma forma dando sinais de que podem e querem reconstruir essa direita democrática. Eles são democratas e demarcaram a diferença da extrema direita, além de se distanciarem também da esquerda e do centrão", ressaltou Moisés.

O PSDB contará neste início de legislatura no Congresso com apenas três senadores e 13 deputados federais — dez a menos que a bancada eleita em 2018. Um dos principais nomes do partido no Congresso é o ex-governador de Minas e ex-senador Aécio Neves, que se candidatou à Câmara nas últimas duas eleições após ser chamuscado por casos de corrupção.

"Este momento atual representa o maior baque que o partido já sofreu", afirma o cientista político Henrique Curi, doutorando pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador-visitante na universidade americana de Harvard. Curi se dedica, no mestrado e agora no doutorado, a estudar o PSDB.

"Houve um momento de virada do partido quando ele foi tomado por um certo desespero para tirar o PT do poder. Algumas lideranças acabaram tensionando e tomaram atitudes extremadas", ressalta Henrique Curi. Um exemplo foi a contestação do resultado eleitoral de 2014, após Dilma Rousseff vencer Aécio Neves. O neto de Tancredo Neves (1910-1985) se tornou o primeiro candidato derrotado à Presidência a contestar na Justiça o resultado de uma eleição, gesto repetido no final do ano passado por Bolsonaro.

O difícil, observa Curi, será a tarefa de reconstruir a direita democrática. "Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Como fazer isso? Vai ser preciso um pacto entre as elites políticas e os partidos desse campo para isolar os nomes da direita não-democrática alinhados a Bolsonaro". 

Nesta nova era brasileira, com um novo Congresso, muitos tucanos de peso já encaminharam a sua aposentadoria. Um deles é José Serra, outrora um dos grandes nomes do PSDB, que não conseguiu se eleger na última eleição. Ex-ministro da Saúde, governador de São Paulo, prefeito, Serra, 80 anos, sempre almejou ser presidente, sonho que não realizou. Ontem foi seu último dia como senador.

"Os líderes não foram capazes de dar uma resposta diante das crises brasileiras. Isso deixou um vazio que acabou ocupado pela extrema direita e colapsou o PSDB", resume José Álvaro Moisés.

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