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Exposição de Sebastião Salgado projeta a Amazônia para o futuro

Texto por Felipe Paiva
#Amazônia11 de jun. de 218 min de leitura
Texto por Felipe Paiva11 de jun. de 218 min de leitura
  • “Os indígenas da Amazônia representam a pré-história da humanidade, e eles são bons. Nós éramos bons, nós não somos mais”.
  • “Essa floresta representa a maior concentração de riquezas do planeta. Você sabe quanto custa um hectare de floresta? Você só sabe no dia que você tem que reconstruir”.
  • “Hoje, talvez, o primeiro país do mundo que se preocupa com a Amazônia é o Brasil. E isso me dá uma esperança imensa de que nós podemos proteger o bioma amazônico e proteger as comunidades indígenas”.

O fotógrafo Sebastião Salgado acaba de inaugurar, na Filarmônica de Paris, a exposição “Amazônia”, fruto de uma viagem de sete anos pela floresta. “Nós temos esperança de que as pessoas que vão entrar nessa exposição, no momento que elas saírem não serão mais as mesmas”, afirma.
Nesta entrevista a Headline, Salgado conta detalhes de seu novo trabalho e ainda fala sobre o resultado do manifesto de apoio às comunidades indígenas, feito ano passado. “Não só não nos responderam como, de certa forma, eu recebi uma agressão deles. Quiseram devolver as fotografias que eu doei à Funai, que pertencem ao patrimônio histórico do Brasil. A única parte do poder brasileiro que nós contamos - eu digo nós, porque são as organizações ambientalistas, humanitárias e indígenas que recebem um apoio - é o Poder Judiciário. O Poder Judiciário é o último bastião que nós temos hoje como equilíbrio dessa força destrutiva que o governo atual está levando em direção à Amazônia”, diz.

Você é um pessimista ou um otimista em relação à causa da Amazônia?

Sou pessimista no sentido de que a destruição da Amazônia não começou com o governo Bolsonaro. Ela começou muito antes. Nós perdemos 17,3% da Amazônia nos últimos 40 anos. Sou otimista no sentido de que até um ano e meio atrás, os brasileiros não tinham a mínima preocupação pela Amazônia e pelas comunidades indígenas. E hoje, talvez, graças ao covid e ao alerta de extermínio das comunidades indígenas, houve um despertar do povo brasileiro em direção à Amazônia. Hoje, talvez, o primeiro país do mundo que se preocupa com a Amazônia é o Brasil, são os brasileiros. E isso me dá uma esperança imensa de que nós podemos proteger o bioma amazônico e proteger as comunidades indígenas da Amazônia.

Em referência à Amazônia, você disse "o paraíso é aí dentro". Por quê?

Sim, o paraíso é a referência da bondade na nossa sociedade de origem cristã, não é? E a Amazônia, exceto os predadores, só tem bondade. Tem uma floresta que só faz bondade para a humanidade, que captura, que sequestra o carbono, que transforma toda a poluição do mundo em madeira e libera duas moléculas de oxigênio para a gente respirar. Uma grande parte da fotossíntese do planeta se faz dentro da floresta Amazonia. Ela protege o planeta com toda a umidade que garante o sistema de chuva e o maior acúmulo de biodiversidade. Ela mantém para a gente tudo isso, então, é um local de bondade. E as pessoas que vivem lá dentro, as comunidades indígenas, são boas. Quando você olha o mapa da Amazônia, os territórios indígenas são os mais bem protegidos. Eles são os guardiões dessa floresta, desse ecossistema. Eles não conhecem a mentira, não conhecem a violência, não são maus. Tudo que você imputa de maldade aos indígenas é ficção. É criado por nós, que viemos de uma sociedade agressiva e queremos imputar uma ficção através dos filmes e de tudo que criamos sobre a floresta. Quando você vai lá, a realidade é outra. Então, quando eu vim trabalhar nessas comunidades, eu tive uma paz, um prazer tão grande, que eu acho que a humanidade tinha que saber disso. A humanidade tinha que saber que no início nós éramos bons. Porque os indígenas da Amazônia representam a pré-história da humanidade, e eles são bons. Nós éramos bons, nós não somos mais.

Essa é uma exposição multissensorial? 

Essa é a ideia, mas não foi minha. Essa ideia é da Lélia (Salgado). Ela criou a exposição dessa forma, criou todo o cenário, a ideia da música do Jean-Michel Jarre. Ela quis trazer os sons da floresta amazônica dentro de um corpo musical. E nós teremos um concerto de música clássica com orquestra sinfônica completa, apresentando uma música do Villa-Lobos, que ele compôs, que se chama “A Floresta do Amazonas”. Então, nós vamos fazer aqui, na grande sala, no dia 31 de agosto, esse concerto que vamos apresentar no mundo inteiro. Temos também testemunhos das lideranças indígenas, que trazem todo o aspecto da degradação, que falam das ameaças que sofrem. Na fotografia, tentei apresentar aspectos da Amazônia que nós não conhecíamos. A gente não conhecia as montanhas da Amazônia. O maior massivo de montanhas do Brasil é o massivo do Imeri, que está dentro da floresta amazônica. O pico mais alto do Brasil é o Pico da Neblina, ele está dentro da floresta amazônica. Então, eu consegui, fazendo grandes viagens com o Exército Brasileiro, que me aceitou levar dentro de suas missões, apresentar nessa exposição, pela primeira vez, o conceito dos rios aéreos. Nós temos imagens que mostram esses rios aéreos, esses grandes volumes de nuvens que vão partir para o mundo inteiro, garantir as chuvas e a umidade. A partir do conjunto de todos esses aspectos, nós temos esperança de que as pessoas que vão entrar nessa exposição, no momento que elas saírem não serão mais as mesmas. 

Onde você gostaria que esse público chegasse? 

Nela toda. Que visse tudo. Porque essa exposição começa com a visão generosa da Amazônia. Com fotografias aéreas feitas de uma maneira a mostrar a imensidão desse espaço. Depois, nós chegamos nas comunidades indígenas, que a Lélia desenhou como ocas. E depois nós chegamos nos rios aéreos, nas montanhas, nas chuvas torrenciais da Amazônia. São chuvas que jamais veremos em nenhum lugar do planeta, exceto lá. Então, eu levaria o público na exposição inteira, nas projeções. Há uma projeção só de retratos de indígenas, com uma música maravilhosa, organizada pelo Conjunto Pau Brasil, de São Paulo. É uma exposição para você passar um certo tempo e, no momento que você sair, vai sair uma outra pessoa.

Sua exposição é voltada para o passado ou você quer projetá-la para nosso futuro?

Quero projetar a exposição para o nosso futuro. O nosso futuro é essa floresta. Essa floresta representa a maior concentração de riquezas do planeta. Você sabe quanto custa um hectare de floresta? Você só sabe no dia que você tem que reconstruir. E nós temos um projeto ambiental de reconstrução da Mata Atlântica. O Instituto Terra já plantou muito, nós já plantamos milhões de árvores. Sabemos quanto custa um hectare de terra. E quando você vê uma grande fazenda, uma grande propriedade rural na Amazônia, que são dezenas de milhares de hectares, jamais essa propriedade vai produzir o que ela destruiu. O futuro do Brasil, o futuro das gerações futuras do Brasil, é a preservação desse espaço amazônico. Esse espaço amazônico pode gerar uma riqueza fabulosa para o Brasil sem destruir uma só árvore. A floresta pode se transformar no maior espaço turístico do planeta sem destruir uma árvore, integrando a grande quantidade de brasileiros que vivem na Amazônia. A população  da Amazônia é superior a 25 milhões de habitantes. A população do Canadá é de 28 milhões de habitantes. E o PIB do Canadá você sabe que é considerável. Então, nós temos população, nós temos todas as condições, é questão de aceitar que a grande riqueza é a floresta e que essa floresta pode trazer uma riqueza infinita para o povo brasileiro, que mantém seu ecossistema tão necessário para a sobrevivência da humanidade inteira. 

Quantas fotos há na exposição inteira?

Existem 205 fotografias na exposição e mais 220 fotografias projetadas. Duas projeções de 110 fotografias cada uma. Uma projeção de retratos e uma projeção de paisagens.

E depois a exposição vai para o Brasil?

Não, ela será feita no Brasil. Nós teremos duas exposições que serão apresentadas no Brasil, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Elas vão circular no Brasil e depois na América Latina. Temos quatro exposições montadas na Europa, uma exposição em Paris, que vai para Avignon e depois vai seguir caminho para outros lugares. Temos uma outra exposição que começará em Roma no dia 21 de setembro, e depois deve ir a Milão e até a Alemanha. E temos uma outra exposição, que começará em Londres no dia 13 de outubro, deve ir a Manchester e depois segue caminho também pelos outros países da Europa.

E começa no Brasil quando?

Em São Paulo no mês de fevereiro, no Sesc Pompéia; e no Rio de Janeiro, no mês de julho, no Museu do Amanhã. 

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Fotografia
Sebastião Salgado
Sebastiao Salgado